um deus ex-machina encontra MADLEIA
08/12/2009
04/12/2009
Centro de Artes e Comunicação
Carlos Bartolomeu
Boa Noite, a todos os presentes!
Caros colegas professores, funcionários e representantes de nossa instituição: a Universidade Federal de Pernambuco.
Demais convidados, pais e alunos.
Estamos em casa. Respirem...Serei breve.
Sorriam de si para si mesmos. Aceitem essa hora de alegria. Ouçam suas mais profundas motivações, e, mesmo aqueles que se sintam inconclusos, peço, não recusem o instante da união.
Entre tantas outras coisas, é disso que essa cerimônia trata. É o discurso real que toda pompa e circunstância de uma festividade como a nossa deve traduzir.
Alegria... Contentamento.
A conclusão de um curso significa, assim como todos outros epílogos interpretados por nós, seres humanos, nada mais, nada menos de que passagem.
No nosso caso espera-se que mais conhecimento seja acrescido.
Entretanto, todo término é tão somente: passagem. Intermezzo.
A busca incessante por recuperar ‘aquilo tudo que poderia ter sido e que não foi’.
Outra vez e mais outra.
Acreditem, existe em rituais como o que agora interpretamos, uma subjetiva, profunda indicação de tempos que se seguirão.
Tempos positivos! Espero. Tempos mais positivos.
Expresso a opinião, de que lá, bem no intimo, se vocês imprimissem maior força aos quereres verdadeiramente vitais, escapando do apego ao – EU VOU DAR CERTO; EU VOU SER UM SUCESSO, e reunidos à canção mais infantil de suas almas afirmarem: EU VOU SER FELIZ, o fato efetivamente acontecerá.
Reverterão todos os tempos negativos, e saberão que ‘a alegria é a prova dos nove’.
Isto sim, será a solenidade maior de cada um de vocês. Provocante, pessoal, intraduzível.
Insisto, não devem potencializar o desejo vaidoso de se tornarem - o cidadão de recursos, do protagonista da história -. Antes, o de viventes, e observadores da narrativa de suas próprias vidas.
E pelo amor de Deus, não se recriminem!
Dêem-se a chance de recomeçar, sempre.
Viver é movimento.
Concluir um curso faz parte das experiências de uma vida. Há outras tão grandiosas e necessárias, sendo que a maior de todas, será sempre a experiência de exercermos a Amorosidade.
Amar é afirmativamente compreender, aceitar e prosseguir. Trabalhar está indissoluvelmente ligado a tudo isso.
Amar nos possibilita a inteireza de nossas ações e nos incita a continuidade, ao desapego, mesmo quando achamos que não podemos, não devemos.
Não pensem que estamos aqui por obra do acaso, ou que houve erro nas escolhas feitas. Ao final, tudo se ajusta, e nos é dado compreender. A cada um, conforme sua maneira de ver e sentir.
Insisto em tal pensamento, para que também, eu possa entender o sentido do recomeço.
Reiniciar todos os anos e dias, todos os segundos.
Dar continuidade a continuidade. Prosseguindo na transmissão daquilo que aprendi com outros, e que com outros aprenderam antes de mim. Rito que me faz reencontrar o antigo
Levantar-me, encher-me de esperança, refazer o mesmo caminho, ocultando encontros e desencontros, À alternância de máscaras Sentir que muitas vezes se necessita do silêncio e da distância, e se ver negado a tal vivência.
Por isso mesmo, repetindo o dever de ir neste movimento, verdadeiramente encontrar-se.
Ao final, deixar de lado tudo. Tudo.
Aceitar que na vida, só pode ser explicável toda uma realidade assim, porque ela sintoniza com o bem maior.
Anseio que minhas palavras possam transmitir aos que estão aqui, e prioritariamente aos formandos dos diversos cursos, a mensagem necessária a um momento como o que vivenciamos.
Anos atrás, passei por tal experiência; como de resto, todos aqueles que formam a assistência, aqui, ao centro do palco.
Por mais, que tratemos esse tipo de situação em perspectiva, na possibilidade de reduzirmos o acumulo emocional que a memória nos impõe; raciocino, que a conjugação de lembranças, assim, nos direciona a aceitação daquelas realidades que não podemos alterar.
Penso que através delas, e no exercício que elas imprimem dentro de nós, sobressai a coisa meramente humana e sua busca em estabelecer o contato com o imperecível.
Digo isso, tendo em mente a tarefa de que cada um deverá empreender; qual seja, a de avançar em direção ao futuro.
E o futuro é o espaço do possível. Não temam.
Prometam a si mesmos que quando o medo vier, vocês estarão com vocês.
É apenas dessa pessoa que vocês necessitarão nessa hora. E vocês enfrentarão tal sentimento com a força que somente a suavidade possui.
Isso é muito. Estejam prontos, e ‘estar pronto é tudo’. É só.
Por hora, devo despedir-me, dando passagem a uma frase que me tem acompanhado e iluminado às horas determinantes, horas em que a vaidade me retira do Caminho do Meio, dos momentos em que eu me esqueço que pertenço ao Infinito, e de que somos filhos das coisas verdadeiras e simples.
Tal fala mora a tanto tempo em mim, que talvez não saiba enunciar seu verdadeiro autor, o nome que me salta à lembrança, é do escritor norte americano Wallace Stevens, e a frase é a seguinte:
‘É assim que terminam todas as coisas, não com um estrondo, e sim, com um sussurro...’.
Fiquem em paz.
Boa Sorte! Boa Noite!!
Recife, julho de 2006
22/11/2009

Ontem no Teatro Joaquim Cardozo levamos à cena o texto de Henrique Celibi, MADLEIA + OU - DOIDA. Festejamos os trinta anos de carreira deste artista, festejamos o teatro, como também saudamos a memória de outro notável criador: Beto Diniz.
Foi um despertar tranquilo de nossa realização para o público recifense. A casa acolheu aqueles que revereciam de alguma forma essas nossas intenções, e nossa forma de aquecer a criatividade, e o poder de realizarmos de coração e alma, nosso teatro.
Madleia bailou, confessando poesia e superação.
Estamos em dia com a vida e nossos deuses. Entendemos...
19/11/2009
18/11/2009

O JOGO DA AMARELINHA, quadro do TEATRO PRETENSIOSO cena que faz parte da peça PLAY DOG. Tal representação é resultado do projeto O APRENDIZ ENCENA 2009, desenvolvido pelo Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo-Hermilo. Os encenadores aprendizes Alisson Castro, Rafael Barreiros foram responsáveis por encenar Lesados de Rafael Martins, A Refeição de Newton Moreno, cabendo a Rodrigo Cunha recriar o Jogo da Amarelinha.
O exercício deste ano foi orientado por Carlos Bartolomeu o qual também realizou a curadoria ao lado do professor Luís Augusto Reis e dos artistas Vavá Schön-Paulino e Albemar Araujo.
O espetáculo teve estréia no dia 14 de novenbro e será apresentado no Festival Nacional de Teatro do Recife.
09/11/2009
APRESENTAÇÃO DA ENCENAÇÃO DE MadLeia
Carlos Bartolomeu
Entre risos, MADLEIA MAIS OU MENOS DOIDA cochicha coisas do popular, questiúnculas do pop, escritas, seriíssimos postulados e nostalgias afins. O roteiro teatral de Henrique Celibi esconde uma crítica bem humorada ao olhar determinante e o refinamento de gosto. Repensa a veemência com que os árbitros da cultura validam ou não, idéias e produções de ampla parcela criativa de nossos artistas. MAD debocha do grandioso, da dolorosa escolha, e dos passantes. Aqui, o profundo é apenas extensão, não acorda intensidade alguma.
Nossa encenação arrancada do surrado ou do repetitivo, costura contornos de apropriação do brega, viajando no melodramático, televisivo, no mal ou bem feito do entretenimento. MADLEIA abandonada por Jasão do erário cultural estrila com guizos nas roupas, inventando um folhetim pelmex, grávido da chanchada.
MADLEIA pinta seu rosto no espelho banal da paixão. Importa-se menos como verdade artística e sim, na competência de comunicar e repetir uma idéia sobre a violência do abandono e do ciúme.
MADLEIA refoga seu espetáculo na untuosa panela da autocomplacência sem pudor algum, cozinhando textos originais junto aos estilhaços do cancioneiro popularíssimo, e de uma recorrência a partituras físicas de primaria sugestão, cospe sonoramente na cara de muitos ou todos. Nada tendo a recuperar ou traduzir, faz disso, o sentido e finalidade. O espetáculo MAD enrola-se em idéias dramatúrgicas, sendo um musical em que o recorte naif e a escola da comédia radiofônica e televisiva canibalizam a festa.
Haja rito sem passagem e chá com pão...
<em>P/S. Dedicado à memória de “KOJAK” um cãozinho mexicano pertencente ao crítico e jornalista Valdi Coutinho, e que fez parte do elenco do TEO em DEBULERA por mim dirigido em 1976, Teatro de SANTA IZABEL, e também para “WHITE” um felino stanislavskiano do diretor José Francisco Filho.
Nov.09
18/10/2009
28/09/2009
"Palavras soltas ao vento: é o gesto. ‘Descomê-las é a intenção: a (in) cidental’. Tudo é permitido: ‘a cópia é melhor que o original’.
Marinetti ou Marinete: Matriarcado de Andrade.
1º BLEFE: ‘Teatro é uma coisa tão antiga que pode até voltar.
2º BLEFE: O Ato Negativo – a cobra morde o rabo e, o espelho presente. Onisciente espelho, moldura cultural dos papagaios e macacos.
3º BLEFE: Devolver-se ao berço, esconjugar o ventre, implorar a volta, fugir e re/voltar... Ah Europa, sempre a láurea lhe cabe... O Espelho presente: repetir, repetir, repetir: Ecos de uma forma já gasta”.
* In CARTAS DE PREGO: INSTRUÇÕES DE ABORDAGEM & DESCULPAS CÊNICAS.
"Antonio Cadengue, em um artigo para o Correio das Artes (João Pessoa), intitulado “Pequena Cirurgia”, faz uma análise de A Mais Forte, enquanto escritura dramática, de modo a apresentá-la ao público, e saúda a mais recente realização da ainda recente Casa de Ópera:
“É extremamente gratificante recorrer a Strindberg para realizarmos o segundo trabalho da Casa de Ópera. As inovações, as grandes transformações por que passou o teatro moderno – e cerne das preocupações nossas enquanto grupo teatral – foram para ele, não só preconizadas como vivenciadas. E isso comunga com nosso ideário estético-ideológico.
Ibsen, o dinamarquês prêmio Nobel, embora inimigo mortal de Strindberg, mantinha em seu escritório um retrato seu, e dizia: ‘Não posso escrever uma linha sem aquele louco ali parado, olhando para mim com seus olhos de doido! É verdade. Strindberg, olhando com loucura para a vida nos possibilitou momentos indeléveis da literatura dramática que agora a Casa de Ópera tem o prazer de oferecer às sensibilidades maiores”.
À sensibilidade, por exemplo, de Paulo Vieira, professor da Universidade Federal da Paraíba, vê A Mais Forte, como uma “grande anatomia”. Ele explica o que é, e como se essa anatomia:
“Um corpo é um conjunto de órgãos com funções diferentes e finalidades semelhantes. Um labirinto é um conjunto de caminhos que não levam a lugar. Uma obra (no caso, de arte) é um conjunto de signos que remetem a outros signos. Um conjunto é um sistema. Um espelho é um mundo que não tem vida própria. A paixão é o yang. O apaixonado é o ying.
Está desenhada a anatomia da peça A Mais Forte, de Strindberg.
Mas uma peça de teatro (está dito) precisa ser lida no palco, onde ela se redimensiona, onde ela se realiza e onde o seu corpus se veste de vida.
A encenação de A Mais Forte por Carlos Bartolomeu vai em busca da essência do texto de Strindberg, e no fim desta busca toca (ou encontra) a sua dessemelhança: a essência da cultura brasileira. Ou ainda, por dessemelhança, o nosso caráter de povo. E vejam: são duas coisas diferentes: a peça de Strindberg e o caráter do brasileiro. Duas coisas diferentes que se unem na encenação de Carlos, como se fossem os dois olhos que se encontram no infinito, segundo a poética do Chico Buarque. Como se fossem dois contrários que se tocam, segundo o preceito da física – ou da metafísica”.
Um labirinto, dentro do qual se desenrola o conflito da paixão, o discurso da paixão, que o encenador recupera, também ele apaixonado.
O espelho, o jogo dos espelhos e dos reflexos. Uma dualidade, e nesta, os contrários: elementos com os quais Carlos Bartolomeu arma o seu jogo. Reflexo, imagem, diferenças: o espelho fornece os dados, mas não a resposta. E a encenação vai além da constatação da diferença: ela também é uma diferença; ela é também o seu duplo, o seu espelho, o seu reflexo.
Daí, os dois atos; o jogo com as cores preto/branco-azul/rosa -; o cenário, que se resume a um biombo (onde está desenhado um labirinto), uma mesa e duas cadeiras (também em preto e branco); o jogo som/silêncio: uma personagem fala sem parar, a outra não diz uma palavra; as marcas, que dividem a ação em dois lados separados por uma mesa; dois estilos, dois gêneros: no 1º ato o expressionismo/o melodrama; no 2º a comédia dell’arte/o cômico, a carnavalização.
Não mais o preto e o branco; mas o azul e o rosa; não mais o labirinto, mas uma cortina, sugerindo a festa; e uma grande máscara, colocada no canto do biombo. O carnaval, a mascarada, a grande festa do povo, e que é o povo brasileiro. O povo e o país, brasileiros, em sua transgressão, em sua alegria, em seu prazer, em sua desorganização, em seu delírio. Esta é a grande guinada que acontece no segundo ato de A Mais Forte.
E a encenação de Carlos Bartolomeu, continua Paulo Vieira:
“(...) é um espelho de muitas imagens. Não se pode esquecer, no meio destas imagens, o Kitsch, representado pelo melodrama. O Kitsch é a componente básica para se entender a cultura brasileira, que é, em última instância, a cultura européia carnavalizada.
A Mais Forte é a grande anatomia do ser e do não-ser, do senso e do nonsense, do chão e da paixão. O espetáculo é um universo de significação e, provavelmente, não se esgote aí, onde o alinhavei. É preciso ver para saber”.
Edélcio Mostaço, crítico de teatro da Folha de São Paulo, escrevendo para a revista Marca da Fantasia, que deixou de circular, daí o ineditismo do seu artigo, “A surpreendente dupla articulação da arte”, fala das suas gratas surpresas com A Mais Forte:
“(...) O espetáculo de Carlos Bartolomeu oferece-se pleno de significações, onde se cruzam certos exercícios estilísticos comandados com habilidade e um primoroso acabamento artístico repleto de signos cênicos dotados de eloqüência”.
Analisando a escritura cênica de Carlos Bartolomeu, Edélcio assinala a boa utilização do discurso duplo – o viés melodramático neo-expressionista do 1º ato – e a impostação geral próxima da comédia dell’arte, do 2º, numa releitura adequada feita pelo encenador. Prosseguindo em sua análise, afirma Edélcio que:
“(...) este jogo possui uma dupla articulação. Pode ser lido de várias maneiras (segundo padrões sociológicos, psicanalíticos, antropológicos, históricos, semiológicos, etc). São quase infinitas estas parelhas de situações dialeticamente relacionadas inda mais que, neste espetáculo, é utilizado o recurso da troca de atrizes nos dois desempenhos”.
Desempenhos notáveis, que demonstram “rara vitalidade e apurado jogo de contrastes, num trabalho de acabamento que nada fica a dever às grandes interpretações de atrizes de larga experiência (o que, me parece, difícil de ser conseguido numa cidade sem escolas e sem teatro regular)”.
Enfim, todo o universo cênico de A Mais Forte é pleno de significantes significativos:
“(...) cabelos, roupas, gestos, acessórios, um tom de falar e de se dirigir ao outro. Se na primeira parte este conjunto surge em sua escala olimpiana, na segunda aparecerá em sua escala infernal. Ou derrisória, para ficarmos numa metáfora menos forte e mais adequada à farsa desbragada com que as atrizes se atiram uma sobre a outra”.
E conclui, considerando o espetáculo como um dos melhores que estiveram em cartaz em 1984; um espetáculo que “preenche com todos os requisitos as exigências de um teatro culturalmente empenhado, numa realização artística totalmente empreendida”.
O prof. Paulo Michelotto define o trabalho de mise-em-scène de Carlos Bartolomeu, n’A Mais Forte, como um trabalho elaborado de grafia sonora e de iluminação. Considera A Mais Forte “um tratado inteiro de relações algébricas, um tratado inteiro sobre as relações de parentesco, de linguagem”.
Mas o que Paulo Michelotto ressalta “é ser um tratado, sobretudo de encenação, que sobressaindo-se das demais características torna-se dominante”.
A Mais Forte: um espetáculo que, representando Pernambuco no II Festival Brasileiro de Teatro Amador, realizado em Recife, em julho de 1984 colocou o teatro pernambucano no nível das melhores produções nacionais. "
27/09/2009
26/09/2009
14/09/2009
12/09/2009





Entre tantos nomes podemos citar: Anacleto Eloi, Augusta Ferraz, Daniela Camara, Cleyton Cabral, Bete Gouveia, João Ferreira, Sonia Bierbard, Gilberto Brito, José Francisco Filho, Luis Reis, Moisés Neto, Rinaldo Carvalho, Nilza Lisboa, Rosa Bezerra, Rodrigo Cunha, Pascoal Filizola, Geisa Barlavento, Ricardo Biggi, Simone Figueiredo, (...)
09/09/2009
07/07/2009
Carlos Bartolomeu
1 café não é tudo.1 café pode ser muito,
Se alguma coisa quente e perfumada é deixada para trás.
Suave-forte é sorver inteira, a Vida nossa. (in) completa.
A história que se foi. Tudo que nos foi dado. Por acaso? Não!
- Não, saudade de um café não pode ser tudo.
Além, tem mais, meu bem.1 Café? Será?
Se for, aos poucos ficará, apenas, uma lembrança à toa.
De nós, de tudo. Nunca, uma lembrança boa.
Reviso os planos n’água. Bolhas sobre ela.
Mágoa nenhuma. A poeira em seu lugar acentua o tempo.
A contínua distância, e na distância continua um não. O seu não.
Por outro lado, um sim da vida.
Você
Distante, ao lembrar, memorize. Odores quentes. Cheiros.
Fale da gente como quem tentou, e realizou aromas.
Fomos a Roma. Ao amor nos demos e saímos melhor.
Maior o teu suor no meu. Alguma lágrima, e talvez-adeus.
Adeus-sim. Adeus, não?
Você e eu quase lá, perto. Certo(s).
Tão próximos, eu e você.
Você e Eu: em cada lado do oceano.
A propósito de tudo isso. Naveguemos.
Um dia, nossos barcos cruzando
Outro plano, outro concerto,
Subindo o pano em verso de pé quebrado, arrepiem os pelos.
Amar, atracar, permanecer, sinaliza
Deixar, deixar-se. Ir-se, partir, sendo também,
A seu modo, também amar.
1 café deve ser tudo
Todo o motivo da saudade.
A cor, seu odor. Cheirar, sentir, beber.
Queimar-se. E ao rever, degustar o sabor.
A plena certeza de ter sido amado, nunca esquecido.
Sim, um café é tudo.
Encontrei meu amor num café.
Em outro café perdi a fé. Mais na frente, novamente um perfume quente me deteve. Café, cafés, bolos, lattes,
Cappuccinos, balas e biscoitos.
Chás, champanhas, licores,
Mingaus, papas e chistes,
1 combinado, e o destratado.
Valores e compras, traições e suas razões. Tensão e tesão.
Ciúmes e suas ambíguas aparições.
Memória solo, e nadinha de raiva, nadinha mesmo.
Apenas do verbo amar a vista limpa, a fé esclarecida.
E conosco a permanência daquilo que nos reconhece.
Frente ao nosso olhar aberto, o abraço que nos acolhe.
O corpo e o espírito do pertencimento.
O ido. O sempre. O nosso.
Os dedos digitam livres de anéis,
Aliciantes retomam no côncavo
Toda leveza do vazio. Olor, tonalidade marrom oscura bebericar. Esvaziar.
No fim da tarde, chá para dois.
05/07/2009
02/07/2009
28/06/2009

SENTINDO o sentido
Visitando a memória, dissolvo minha vacilante visão do passado. O ido me reinicia, convoca um retorno a pontos diversos da narrativa.
A unicidade inspira através do multiplo, levando-me a compreensão de que ao final, o erro foi a solução, nunca o entrave.
A memória reinventada pelo perdão, me ensina a lidar como o acolhimento de mim mesmo, sendo a expressão dinâmica da aceitação. A amorosidade encontra um lugar sagrado onde antes habitava perdas e preconceitos.
O espaço onde habita toda alma é sempre o presente. O lugar da vida é mesmo o aqui.
Tudo e nada se conjugam como elementos essenciais ante a luz da presença. A idade do feliz é sempre no agora. Reinvente-se nele.
A plenitude revela-se na suavidade. Toda força advém da fragilidade, e isto é o fruto daquilo que nunca precisará ser procurado ou submetido porque vive em nós, existe por nós, e todos os dias nos ilumina o desafio de continua mudando, nos desapegando do limite e ilusão.
O inconfundível perfil da eternidade joga assim conosco, surpreendentemente cresce com nossa humanidade. Amorosamente abraça aquele que não se reconhece, e nos revela dentro da luz e sombra uma outra possibilidade, a penumbra, o entardecer. Percebe o todo que o significado de tudo isso é apenas passagem.
Luz, dia, noite, obscuridade. Plenitude e vazio. Os acidentes da racionalidade excessiva. A mística desenfreada da santidade. A carne exposta e o silencioso recolhimento. Tudo, e o mais que por trás se esconda, são por princípio, caminho, aprendizado. E o caminho só termina no início. O início não tem fim.
08/06/2009

APRENDER AGORA!
- “Como vivemos em uma cultura dominada pela mente, a maior parte da arte moderna, da arquitetura, da música e da literatura é desprovida de beleza, de essência interior, com raras exceções.
A razão é que as pessoas que criam essas obras não conseguem livrar-se de suas mentes, nem mesmo por um momento. Portanto, nunca estão em contato com aquele lugar interior, onde se originam a verdadeira criatividade e beleza.
A mente pode criar monstruosidades e não só nas galerias de arte.Olhe para as nossas paisagens urbanas e terrenos baldios em zonas industriais. Nenhuma civilização jamais produziu tanta feiúra.”
Eckhart Tolle -2002
28/05/2009
- LIÇÕES
DA MEMÓRIA (!)
(...) a necessidade premente, às vezes, de cortejar o ambíguo, como servidor do tempo de uma produção, auxiliar na interpretação do ator, de uma personagem, tomá-lo como recurso, enfim.
Exemplo disso, a personagem do Imperador, em O arquiteto e o Imperador da Assíria de Arrabal. Na tentativa de transmitir a "loquacidade" de determinado movimento dessa personagem, me vi compelido a reprisar para atriz Magdale Alves, uma versão muito particular dos Grandes Balés Russos. (A versão nasceu, a partir da recordação de uma cena de dança, em Mulheres Apaixonadas de Ken Russel. )
Até hoje, guardo o desconfiadíssimo olhar da atriz, sobre essa minha fabulação.
Creio, ter valido a pena. A cena ficou assim: a atriz impulsionava o corpo pra cima, batendo duramente, ambos os pés. Realizava um giro completo com o corpo e frontalmente se abria em "X", para o público. - O efeito era singular e um desconfiadíssimo olhar produzia o efeito de insegurança, realçando a ilusionista dimensão do poder no Imperador.
In FIXANDO O FUGIDIO - carlos bartolomeu
24/05/2009
Atravessando a rua olhou para trás. Pretendeu dar motivos para alguém se arrepender fazer com que ele voltasse.
Ninguém ou mesmo alguém pensou em mudar em coisa concreta a tentativa .
A vida continuava e o tempo tudo renovaria ou extinguiria.
Longe muitísimo longe daquelas duas almas um fado iniciava sua melodia.
Os dois se separaram para sempre. Um amor assim desfeito volta alguma tem.
O que um fado teria com essa história. Nada nenhuma relação. Na verdade pertenciam a contextos outros outras liberdades líricas. Ao atravessar a rua - aquele - disso não desconfiava. Achava pertencer ao outro. O que ficara.
Amados frente aos amantes sofrem por se deixarem acontecer.
Espelhos do não havido OU pouco construído.
Desconhecem a leveza peso de quem permanece.
Permanece olhando quem pretendeu no olhar apenas olhar.
Um ficou cego. Outro torcido.
A fotografia era muito antiga.
Carlos Bartolomeu
20/05/2009
14/05/2009
Nessa altura da vida, o trem é maior. À medida que o tempo passa, que vou caminhando, vou descobrindo. Entendendo. É como amar, e pelo que me consta, a experiência do amor, embora invariavelmente enriquecedora, você não leva como carta de prego para o próximo acontecimento romântico. Há que existir uma nova postura, nova instrução deve ser construída. Aglutina-se uma experiência novíssima com o passar dos dias... Olhamos para trás, e todo aquele universo, sabemos que não se move para o presente da criação. Só a memória e seus enganos líricos é que se apressa em aconselhar. E o meu conselho é olhar o que aconteceu, deixar passar, fincar os pés no presente e projetar-se.
Pergunte por que você faz teatro!. E aí, se você sabe, você não se perde. Eu sei por que eu faço teatro. E faço teatro porque para mim, interessa conversar com minha alma, expor minha alma. Eu dialogo dessa maneira, eu me encontro dessa maneira, é o que eu posso oferecer, imagino que isso seja o melhor de mim. Diante desta realidade, reconheço estar iluminando sempre um aspecto único, e que muitas vezes não nos damos conta. Na realidade sempre editamos um discurso, algo que dentro de nós pede passagem, completude, esvaziamento e paz.
Meu senhor, o deus do teatro é um deus benéfico. Mas, também é o mais terrível, como ele apropriadamente nos revela nas Bacantes. “De todos eu sou o mais benéfico, mas posso ser o mais terrível”. Portanto não caiam na ilusão de imaginar que foram vocês que escolheram o teatro. Foi o teatro que realizou sua escolha. Evoé!
(Apresentação - CARTAS DE PREGO)
13/05/2009
09/05/2009
10/04/2009

FAZER TEATRO DEPENDE DE ALGUNS OU MUITOS NÓS.
CONTINUAR O QUE SE TEM POR FAZER, DEPENDE DO QUERER.(OU NÃO).
FAZER, MUITAS VEZES É RECOLHER-SE. O MUNDO TEM SUA REALIDADES E AS PESSOAS SUAS (IN)DECISÕES.
SEJAMOS PRÁTICOS, E VAMOS CONTINUAR DO JEITO QUE A VIDA PROPÕE, E A VIDA SEMPRE DISPÕM DE MANEIRA SÁBIA O NOSSO CAMINHO.
01/04/2009
01/02/2009
03/01/2009
29/11/2008
Uma cena reveladora em IRMÃ NATIVIDADE (1979). Fotos e texto original do programa estarão nas páginas do próximo lançamento da COMPANHIA DO CHISTE: CARTAS DE PREGO.
Um livro que nos inicia... ao teatro pernambucano.
04/11/2008

26/10/2008
22/10/2008

- "Minhas encenações reeditam continuadamente aspectos noturnos do viver. As sombras rejeitadas, descobertas tardias demais. Um arsenal de gostos primários que se tornam luminescentes quando encarados. Faço disso minha reflexão e meu teatro.
- A gestualidade fotográfica das personas, certo endereçamento à Morte, não como um fim, mas, antes, passagem pela lenda, e discurso do vazio são os atavios que emolduram minha narrativa.
- Uma representação que se adelgaça e se exige parecer a um quase nada de esforço e criação. (...)"
- Continuar a exercer-me enquanto criador é exigencia íntima. Difícil e incompreendida pela grande maioria. Solitária.
- Creiam-me, minha inclusão é nenhuma nesse momento de passagem temporal, onde toda obra de poesia se ressente da obrigação de se aliar a fome do desconhecimento, e ser amparada e estimulada pela cultura do empreguismo.
- Estou à margem, e não participar no ensaio de nulidades que amplia o mercado da esmola, é o enfrentamento do irrealismo proposto por tolices 'políticas'. Olho dentro do olho, o corte de lámina cega sobre a visão nula do arrivismo salvacionista da ocasião.
- Persigo a idéia de esvaziamento da memória dos gestos que me foram caros. Concluindo que talvez pela ação da literatura, eu possa recuperar a aura poética que eles tiveram no passado. Arquiteto ilusões bem sei, mas, com certeza minha pretensão é comover, enternecer.
Organizando-me frente à lembrança de tais instantes, presto tributo ao que independente de minha proximidade, existiu. Realizo, essa tentativa, ocupando-me da descrição de coisinhas sem importância, das pequenas saudades que ficaram confinadas e, das paixões arrebatadas que na maior parte das vezes ninguém soube delas, ou sobre elas comentou. - A recordação de historias assim ficaram localizadas ao interior de poucos sobreviventes. Emocionado, eu desvelo minhas personagens em seu desejo de enunciação e permanência". Lembro meus amores e nesse reconstruir organizo os espaços de sua eternidade.
20/10/2008
23/09/2008

"Parte de mim, mais generosa é otimista, me obriga a reconhecer que eu não o perdi. Aprendo que o sentimento permanece em seu apenas sentir. Será isso a verdadeira possibilidade de continuar amando, quando acabado? Sentir, apenas. Sentir não é perda, é de fato a iluminação.
Deixei-me ruir, e a construção apareceu. Vejo a realidade, embora, apesar de tudo eu preferisse não aceitá-la e imaginar outra coisa; imaginá-lo dizendo meu nome: Aquiles, Aquiles, Aquiles.
18/09/2008
09/09/2008
(publicado hoje, terça-feira, 09 de setembro de 2008)
Não terei saudades de grandes amores, de megashows da vida de hoje, excessiva e incessante. Não. Debaixo da terra, terei saudades de irrelevâncias essenciais, terei saudades de algumas tardes nubladas de domingo que só o carioca percebe, tudo parado, com os urubus dormindo na perna do vento, como dizia o sempre presente Tom, do radinho do porteiro ouvindo o jogo no Maracanã, terei saudades do cafezinho nas beiras dos botequins, de certos tons de roxo e rosa em Ipanema antes da noite cair, saudades do cafajestismo poético dos cariocas, saudades dos raros instantes sem medo ou culpa, de alguns momentos de felicidade profunda, sem motivo, apenas pela gratidão de respirar.
Não terei saudades dos fatos e notícias, nada do mundo febril, só a quietude, o silêncio entre amigos na paz de um bar, papos de cinéfilo, risos proletários e camaradagem de subúrbio, do samba que nos envolve nas rodas pobres com a alegre sabedoria da desesperança, da Lapa, da Avenida Paulista de noite, de Noel Rosa, pernas cruzadas de mulheres inatingíveis, terrenos baldios de minha infância, Paris (claro), Erik Satie, João Gilberto, Matisse, Rimbaud, João Cabral, o tremor de medo e desejo na hora do amor, saudades da primeira namorada no sofá-cama rasgado do apartamentinho secreto do Partidão, com o cartaz dos girassóis de Van Gogh e uns livros da Acadêmica Soviética, tenho saudades da utopia, das madrugadas políticas, da boemia da esquerda, soldados ingênuos de uma guerra invisível, tenho saudades da delicadeza, da compaixão, também da alegria selvagem da vingança nas raras vitórias contra os canalhas, saudades da literatura, da “frágil lua nova”, de Borges, do prazer da arte, Fellini, Shakespeare e Tintoretto em Veneza para sempre, de Cantando na chuva – o maior hino da alegria americana, saudades do piano-bar do Hotel Carlyle, de Thelonius Monk, saudades de Fred Astaire dançando Begin the beguine com Eleanor Powell, felizes para sempre dentro do universo estrelado.
Há várias mortes. Há brutas tragédias, fomes e bombas, horrendos desastres, mas, na morte óbvia, comum, caseira, só temos duas escolhas: súbita ou lenta. Você, frágil leitor, qual delas prefere? O rápido apagar do “abajur lilás” de um ataque cardíaco, ou o lento esvair da vida, sumindo com morfina? Se eu pudesse escolher, queria morrer como o velho Zorba, o grego, em pé, na janela, olhando a paisagem iluminada pelo sol da manhã. E, como ele, dando um berro de despedida.
07/09/2008
Sobre TESTEMUNHO DE ATORES: Panorama do Teleteatro da tv Jornal do CommercioLembrar é para aqueles que esqueceram-Renato Phaelante ESCRITOR, ATOR E PESQUISADOR DA FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO
09/08/2008
29/07/2008

Há um tempo em que a literatura salva os corações; refina o espírito. Tal geografia configura caminhos onde há o romance e a lírica, e mais ainda, o discurso dedicado em sua aparência, ao equilíbrio. Principio, o meio e um fim transitam por uma ordem como figuras impressionistas, obedientes ao sentido. Mudar, compreender outro tipo de recorte, pode nos trazer a alternativa do desvario. Inicio, meio, um final, eis o tríptico que nossa visão insolente contempla a criação. Entretanto, a verdade prescinde de tal arremedo, e refuta o jogo de falseamento do humanamente eterno.
Uma constante de nosso desvio espiritual é tornar pétreo, o possível, o fluido, consequentemente atirando para o alto, aquilo que é; também, definindo como primitiva, a irrisão. Com isso, lançando esta para fora, na sombra, reafirmando a exclusiva instância, a de uma unidade que se iniciando, morre. O entendimento generalizado das criações e dentre elas, as do amor e sua fábula, nega as sombras e sua persuasiva convocação, hostilizando o contínuo pulso do irracional e de sua sonoridade, a um só tempo, inaugural e inatingível. A chama da humana eternidade é submetida ao dilúvio do tangível.
Habita dentro de nós, um tempo ilusório em que creditamos ao racional, o poder de auxiliar nosso projeto de proteção. Tal arquitetura reside sob o encobertamento do fato que a Vida é o urgente, o insano em sua dança shivaista e alegórica. Ato que não reconhece a morte ou o destrutivo como limite. Limite é o racional no campo da emoção e do sentimento. Sentir não é pensar, é existir sem fronteiras. Sentir é olhar com amorosa criatividade o desempenho do pensamento na sua constante tentativa de explicar, e sorrir dessa inutilidade.
Do Rilke nas Elegias de Duíno, Pasolini com seu Teorema, ao Satyricom de Petrônio, ou Dom Casmurro de Machado, todos esses eloqüentes documentos da irracionalidade no amar, nos convocam para o entendimento de que a realidade amorosa destrói em nossas vidas, o que seja descartável e ilusório, reorganizando nossas existências através da sua cruel inventividade. Recuperando o novo, o compartilhar, e a continuidade do ser, reafirmam a vitalidade de um cântico sobre o inalterado que é múltiplo.
Reencontrar junto ao texto de Tereza Alves a citação de Memórias de Adriano é recuperar um testemunho do belo na clássica visão de mundo, nele, a intimidade orgulha-se de sua identidade e invulgarmente se expõe. O amor é coisa de grandes, aristotélico quase; trágico, infinito. O amor modela a desrazão, vivenciando desfechos ciclicamente, num continuado vir a ser, repercutindo este acontecimento que se recria afirmativamente.
“Não é indispensável que aquele que bebe abdique da razão, mas o amante que conserva a sua não obedece inteiramente ao deus do amor”.
Tal frase pinçada de seu contexto original pode parecer aos que desconhecem a obra de Yourcenar, aparentemente permissiva ou mesmo dogmática. Ao contrário do que supõe nossa tibieza, ela nos situa dentro do seu pensamento, convocando um tempo, os seus motivos e crenças. O amor é mais que um exercício, é uma aprendizagem totalizante. Iniciação do aqui e agora, o amor em sua ausência de neutralidade nos redireciona e nos aplaca perante a existência de proteção nenhuma. Como um anjo de filmes alemães, o amor contempla o abismo, e a sua missão é o mergulho. Na aparente derrota da queda frente ao insondável, o anjo se entrega. Abismar-se não é perecer, é amar.
23/07/2008
21/07/2008
20/07/2008
02/07/2008

22/06/2008
11/06/2008
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> Na noite de 27 de janeiro de 2007 a lua estava caolhando no céu de verão do Recife e em Carlos Bartolomeu o anti-humano se transformou em três rapazes práticos no meio do nada pós-moderno que comporta a tribo e a tecnologia: ATORES DO ORGAO IRRESPONSAVEL é o nome do espetáculo apresentado naquela noite no Teatro Armazém, pela Companhia do Chiste.
> Num discurso e encenação ímpares o magnânimo mestre Carlos exercita suas portas fechadas na estréia de um espetáculo bastante divulgado e saído de temporada no coração da metrópole.
> É festa de criança inteligente que recebe os convidados, ávidos de ratoeiras e/ou risadas: não se abrem as cortinas. Reggae outside, stars, the rivers, the boat, that strange ship and the master near us. Pascoal, Rodrigo, Rogério- god save our dear actors. Sparkling! É o texto apressado que o Recife merece. Ai de quem esquecer Adamov (francês de origem russa): Bart de forma simbólica denuncia as perseguições que os homens se infligem mutuamente no jogo com o real contraditório: O Homem e a Criança, O Senhor Moderado. Nada será tão pobre quanto não esmolar o Grotowski ou não tatear por ferrolhos e trancas nas janelas impenetráveis de Artaud e da tropical neve russa minando a quarta parede de cinzas do mais peculiar carnaval pra lá de Bakhtim.
> É uma encenação onde o tropos, aqui numa acepção quase litúrgica, dramática, arrisca unir atração e repulsa.
> O jogo do encenador com os atores é de superação da mediocridade, tornando-a quase asséptica máscara de concepção/ feitura híbrida.
> Não seria necessário apresentar o espetáculo ao público, pois este é acessório do luxo-lixo.
> Sublime gema brilhou no janeiro à beira do atlântico ventilado. Era tudo que eu precisava naquela noite. Vesti preto e acompanhado por João Augusto e Simone encontrei José Francisco, Ivonete Melo no meio dos vários espectadores. Nos instalamos quase confortavelmente, mas de modo maravilhoso extremamente saudável para beber a Ambrósia que seria servida gentilmente, mas com muita severidade e humor, fundamental nestes casos. A lua furando nosso zinco salpicava de estrelas a cena que testemunhamos: cheia de confetes e serpentinas, flores...
> Há como não se ajoelhar diante de tamanho amor com o de Bartolomeu pelo Teatro?
> Ele transformou seu próprio corpo em arte e o ofereceu em novíssima bacanal. Mandou a incauta/ bem esclarecida platéia soprar, lamber, chupar, aprender a Lição de Ionesco. Quebrou a panela da cabra cega. Era o aniversário de alguém que comemora várias vezes a mesma idade(os quarenta). É festa à italiana: Em certo momento Visconti sentou ao meu lado! Fellini passou brincando, Pasollinni olhava furtivamente à beira do cais onde estávamos, víamos pela grade o rio e o mar sacolejando, o céu, os barcos (à esquerda) e à direita a platéia e a cena do chiste. . Fagulhas voaram, estrelas reluziram.
> Se Plutão não é mais um planeta, aí é outra história.
> O intervalo para achegada das Bacantes na segunda parte remexeu o jogo, desarrumou as casa para nova brincadeira/corredor da morte e vida anti-severina.
> Jomard foi o primeiro a se levantar no final cantando e batendo palmas. Soube que Lúcia Machado cantou também. Augusta Ferraz, toda vestida de branco, sorveu rapidamente uma skoll ao entrar. Abracei Bart, Bartô, Bartolomeu, Carlos no final. Já passava da meia-noite, já era domingo, o espetáculo começara na noite do sábado.
> Eu fiquei em estado de choque, pois sou elétrico.
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Moisés Neto
> Recife, vinte e oito de janeiro de dois mil e sete
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27/05/2008
Carlos Bartolomeu
Aconteceu
A pedra partindo rebentou o vidro
Feliz destino do arremesso
De luz
Estilhaços
A mão livre ficou
Sem peso tudo caminha para o alto
Arriscando o ato
Coração abriu-se
Fácil
13/05/2008
03/05/2008

“Olho para as sobras do espetáculo: é "vestígio, mas também revelação."
O preto e o branco da fotografia identificam na vestimenta das personagens, matizes dessa mesma coloração. O índigo transparece do casaco desbotado, roupagem de uma idade, adereço da ritualística de passagem. O corte dos vestidos das atrizes, os esquentes dos atores masculinos ocultam seus corpos, concentrando na gesticulação, nos movimentos das mãos e sobre suas cabeças, o manifesto da significativa melancolia de um tempo. Da minha maneira de encarar esse tempo.
Na disposição deles sobre o palco, no ângulo superior de seus corpos, endereçado ao futuro, a pausa é tudo. A pose estatuesca preserva a todo momento, a permanência. Há na constância dessas atitudes, um definitivo apelo a ser considerado: - 'Um sinal através das chamas'. Vazio e transbordamento.
O significado precioso, que eu insisto em capturar nasce de um tempo íntimo, lançado do agora, e, ele desliza na superfície do memorável, de leve arranhando o velho desenho. Não há palavras. Lá, habita o espelho e o silêncio.
Algo de lá, atravessa o tempo, e comove minha alma. “
IN “UM SINAL ATRAVÉS DAS CHAMAS”. Carlos Bartolomeu
23/04/2008

"O amor sem limites, em todas as suas formas, atualiza-se sempre, sem preocupar-se com o amanhã, ainda que, por acréscimo, este mesmo amanhã lhe seja concedido.
Uma paixão que se esgota no instante, na realização, pelo próprio fato de integrar a morte, e assumi-la, e pelo fato de afrontar o destino, é uma repetida afirmação de eternidade.
Como Nietzsche o declarou, de maneira paroxística, 'a alegria, porém, não deseja herdeiros nem filhos - a alegria quer ela mesma, quer a eternidade, a repetição das mesmas coisas; ela quer que tudo permaneça eternamente igual'."
15/04/2008

AS ARBITRARIEDADES DO INCONSCIENTE
CARLOS BARTOLOMEU
1992. É janeiro, noite na Rua Benfica. No pátio externo ao Teatro Joaquim Cardozo, acontece As Bacantes de Eurípedes, última realização do Curso de Formação do Ator, naquele espaço.
Lembranças: múltiplas sensações e a visão. Dioniso e seu séquito, em primeiro momento, é uma fotografia, em seguida, mostra-se e toma o quadro, a imagem periférica transitando da obscuridade à luz, escorre da memória individual.
Dioniso está só, após confrontar-se com Penteu. Por segundos, o deus aponta para o espaço vazio, braço erguido direcionado para frente. O dedo indicador sinaliza algo que está e não é desvelado. O protagonista da cena também desconhece sua indicação. O encenador assim o quer.
A cada representação, o ator se inquietará sobre o sentido oculto de sua gestualidade, pedirá que se revele o segredo, e apenas subsistirá a dúvida sobre o real sentido do gesto. Seu gesto (?)
Gesto deítico reenviado à própria personagem, e dela para os outros atores fora do espaço de representação e platéia. (4)
O encenador encerra o segredo para que a cada apresentação, o ator aguarde e preencha o silêncio com a presença de seu corpo. Que o corpo fale e a personagem assim se revele. Mas, ele, ator, não pode saber, alguns poucos, dentre a platéia, sensibilizados, pressentirão apenas.
Dúvida e insegurança vão sendo incorporadas no entretecer da trama, e sua ação sobre o desempenho, concorre para a ambigüidade, instalando segundo minha ótica, a expectativa, o devir, o surpreendente.
É uma consciente ilusão de poder, uma forma pueril de apreciar a fragmentação do controle, é reconhecimento da necessária interferência do desconhecido, do mais provisório ainda, e nele, o derrisório, o erro. (5)
O corpo do ator se tenciona, estremece visivelmente, descontraindo-se logo em seguida, é atraído pelo indicador que aponta... Acompanha a sinalização, deslocando-se para o espaço sugerido.
Eis um daqueles instantes, onde o "automatismo" se opera. Compreenda-se nisso, uma forma autoral de revelar a confiança de que gesto ou movimento, sob uma tensão construída, é levado a escrever seu próprio discurso e 'grosso modo' presentificar uma idéia. "De fato, não se trata mais de exercer, pela exibição do corpo, um fascínio mais ou menos explicitamente erótico sobre o espectador, mas de assumir esta revelação freudiana; o corpo tem alguma coisa a dizer; ele é uma outra palavra." [ROUBINE, 1990, p. 47]
Braço e mão relaxam, deixando-se estender ao lado do corpo, apaziguados, em concordância, premeditando por trás de outro ocultamento, uma outra intenção, uma surpresa e a desconstrução.
Das primitivas coreografias desenhadas para as personagens míticas de As Bacantes, procedia a idéia de, através delas, recuperar religiosidade e experimentação artística. A evolução em um circulo monótono, sancionava em seu continuo, a possessão, o transe.
Minha visão detinha-se, tomando como modelo, o andar feminino, pois, "as mulheres não desafiam ou se separam da terra: movem-se ao longo de sua superfície” [HANNA, 1999, p.127]
O masculino, entretanto, oferecia uma sólida presentificação na cena. Como exemplo, Penteu ao ser tragado pela magia do deus, mimetizava Dioniso numa atitude acentuadamente cômica. Vestido como uma das bacantes, ritmava agressivamente o tirso sobre a terra, enquanto batia dura e seguidamente a planta dos pés contra ela.
A movimentação do coro feminino, ironicamente aludia aos detalhes dessa gestualidade masculina, dela subtraindo a violência viril e recompondo-a ebriamente e com certo langor.
"No oeste de Java, Kathy Foley (1985) observou que as mulheres se movem em curvas, com um caráter lânguido e sonambúlico, enquanto que os homens sempre se movem em linhas de tensão, angulosidade, arrancos elásticos, violência.
A mulher em certa etapa da vida manifesta esse ideal piedoso nas danças de transe e semi-rituais, em toda a região. 'As dançarinas, por sua anatomia, são ânforas apropriadas para o divino refinamento. (...) Esvaziadas, no transe, de seu ego individual, elas retornarão a um arquétipo piedoso, daí a especial importância das mulheres capazes de transe e, paralelamente, das dançarinas, (...) Uma vez que o corpo da mulher é a ânfora apropriada do divino, no transe e na dança teatral o movimento é todo em círculos: nenhum demônio pode entrar nele." [HANNA, 199, P.131-2]
No prazer estético e no fruir do estado religioso do movimento processional, o ensejo da carnavalização coincidia.
Intimamente, eu pregava culto à Festa e através dela, reverenciava todas possibilidades de encontro, e as fusões totais: Penteu-Dioniso. Mas, eu silenciava também sobre este assunto.
Não falar é uma das maneiras de conduzir. (6)
Trazer, porém, minha memória à tona, é a forma que agora aciono, na esperança de aproximar, aqueles que puderam acompanhar minhas idas e vindas na cena teatral a uma espécie de compreensão daquilo que em muitos sentidos ficou como metáfora inexplicável.
É uma maneira de estar com aqueles, que no futuro tentarão perceber a dimensão do fazer teatral de um tempo já desaparecido. Confiando que eles tenham mais compaixão com a forma e as revelações de uma criação, que em última análise, talvez, só tenha importado como o caminho de ordenamento interior de quem a realizou.
Recordo a mim e meus atores em seus receios de não atingirem a meta. Ouço suas vozes, partículas de sonoridade. Reordeno seus corpos na câmara lenta da minha memória.
Iniciantes, mal sabiam quão pouco, muito pouco, poderiam reter ou conservar de significativo diante da brevidade do tempo: um gesto incompreensível, uma passada sem razão e é tudo tão breve quanto a duração de uma peça. Embriagados, batem os pés, evoluem circularmente, sobre o terreno nu cercado de um semicírculo de lamparinas votivas, que não tentam esconder certo apelo cristão. E esse tipo de luminosidade reincorpora lembranças quaresmais, luzes de ressurreição.
Influenciando os atores em sua ação de comunicar diretamente ao público, minha verdade autoral (7), procurava destacar através do uso enfático do gesto, a necessidade do confronto com a palavra, ou mesmo da substituição desta. Assim, eu considerava na certeza do espetáculo ser o fundamento; estabelecendo que muitas vezes a palavra poderia ser amplificada ou mesmo substituída pelo gesto, com a mesma honesta desenvoltura com a qual somos muitas vezes levados a descartar os intérpretes.
Apesar do esforço de trabalho, que é para muitos atores penetrar no universo das tragédias, exercer-se diante de Dioniso, produz uma forte sensação de pertencimento e teatralidade prazeirosa.
Misto de polarizações, Dioniso é o repouso dos gêneros, nele o masculino e o feminino convivem em harmonia.
No tocante a relação do deus com o grupo propriamente das bacantes, estilizei a feminilidade dos intérpretes, optando por estabelecer suas marcas em mesma sincronia com as delas. Defini a sua masculinidade em acordo com o elemento terra, sexualizando o toque do tirso contra o solo, pontuando passo a passo, sua caminhada.
Se em parte a inspiração deve ser atribuída às danças circulares, o vocabulário simbólico da gestualidade afetiva constituída pelos atores influiu sobre a criação.
A visão dos intérpretes em sua aflitiva busca por uma ação, que se configurasse adequada a idéia de grandioso que se tem da tragédia, foi reveladora de formas e desenhos que justapostos as mensagens da iconografia e estatuária helenística, resultaram a meu ver num modelo equilibrado do ato. Um ballet cuja dimensão sincrética aproximava-se de nossa maneira popular de dançar. Diria que eram gestos familiares, reconhecíveis.
Ao fim de tudo, mesmo a familiaridade se dissolverá dentro de mim, um dia. Dentro de nós todos, e não guardaremos sempre, o mesmo sentido. O gesto e seu significado serão passíveis de desconstrução. Recomposto, em novo proceder será entendido, e decifrado diversamente do que pode ser na atualidade. Ao fim de tudo, a arte do teatro repousará na impermanência constante, o segredo de sua renovação terá como fator esta singularidade. O alcance de aceitarmos esta realidade acordará dentro de nós, sempre, o surpreendente.
4)- Em SEMIOLOGIA DO TEATRO, o ensaio de Maria Helena Pires Martins considerando a relação do teatro com o texto cênico, identifica o gesto tanto quanto mensagem independente, como tambem em sua relação com a mensagem verbal. Os gestos que acompanham a fala são denominados, de redundantes, negativos, deíticos (Por exemplo, "no caso de uma declaração de amor, coloca-se a mão no peito.") Gestos emotivos são reveladores de "estados emocionais do sujeito que não estejam sendo verbalizados e, por isso mesmo, não possam ser englobados pelas categorias de redundância ou negação. Os gestos metalinguisticos, ou seja, aqueles que substituem a linguagem verbal, são altamente convecionalizados e usados quando a língua falada não possa ou não deva ser usada. Como exemplo claro podemos citar o V d vitória, executado com os dois dedos indicador e médio.(...) Os gestos que independem da fala podem ser: afetivos- quando tiverem objetivo revelar um estado afetivo do sujeito. Distinguem-se dos emotivos pelo fato de não estarem somente relacionados aos assuntos discutidos verbalmente. Fáticos ou de contato- Quando pretenderem estabelecer ou verificar o contato entre interlocutores. Estéticos- (...) São gestos que atraem atenção para sua própria forma, que se afastam do padrão cultural, propondo uma série de interpretações até então incomuns." [1988, pp.258-61]
5) Utilizei como epígrafe do Programa de O ARQUITETO E O IMPERADOR DA ASSÍRIA, uma explicação de Fernando Arrabal sobre o seu teatro. "Os personagens das minhas peças sou eu. Tudo aquilo que eu nunca fiz. É um exorcismo, uma liberação. (...)Eu escrevo para mim, como para me drogar. Se o público gosta, tanto melhor. É um jogo, uma exaltação. "
6)- Anos atrás, dirigi uma leitura de um texto de Gil Vicente, "o Auto da Fé". O entorno, ao meu ver, excessivamente respeitoso motivou-me mais uma vez considerar a necessidade de exaltar o viés lúdico dentro deste trabalho, aos atores e ao público deste "brinquedo", dediquei as seguintes considerações: "A nossa língua tem palavras específicas para o ato de representar: interpretar, atuar. Ao contrário do francês jouer e do inglês To Play, somos altivos: interpretamos! A idéia do lúdico, da brincadeira chega a nós, dentro do teatro, distanciada, longínqua. As brincadeiras, o arremedo infantil reveladores em profundidade do real, passam ao largo, como se fossem menor, diante do edifício intelectual da dramaturgia e da atuação.(...) não intenta finalizar o registro da marcação teatral, é mais na desconstrução e na aparência de desordem que se orienta...e se desculpa."
7)- O significado dessa confissão documenta a necessidade, premente, as vezes, de cortejar o ambíguo, como servidor do tempo de uma produção, auxiliar na interpretação do ator, de uma personagem, recurso, enfim. Exemplo disso, posso citar, a personagem do Imperador, em O arquiteto e o Imperador da Assíria de Arrabal. Afim de tentar transmitir a "loquacidade" de determinado movimento dessa personagem, vi-me compelido a construir para atriz Magdale Alves, uma versão muito particular e criativa dos Grandes Balés russos. A versão nasceu, a partir da recordação de uma cena de dança, em Mulheres Apaixonadas de Ken Russel. Até hoje, guardo o desconfiadíssimo olhar da atriz, sobre essa minha fabulação. Creio, ter valido a pena. A cena ficou assim: a atriz impulsionava o corpo pra cima, batendo duramente, ambos os pés. Realizava um giro completo com o corpo e frontalmente se abria em "X", para o público. O efeito era singular e o "desconfiadíssimo olhar" produzia um efeito de insegurança que realçava a dimensão do poder do Imperador.
12/04/2008

“Quando o “valor da vida” dá lugar ao “valor da utilidade”, assistimos ao triunfo de uma degenerescência que, sob o manto do moralismo, é, de fato, uma negação da existência em seu sentido pleno.
Tendo isso em mente, podemos apreciar, por meio de um verdadeiro saber desinteressado, desengajado, o retorno do paradigma dionisíaco, expresso nas múltiplas reações à unidimensionalidade econômico-tecnocrática. Rebeliões, revoltas, indiferenças políticas, importância da proxemia, valorização do território, sensibilidade ecológica, retorno das tradições culturais e recurso às medicinas naturais; tudo isso, e poderíamos à vontade continuar a lista, traduz a continuidade, a tenacidade de um querer-vive, individual e coletivo, que não foi, totalmente, erradicado. É a expressão de uma irreprimível saúde popular. A emergência de uma tática existencialmente alternativa. De alguma forma, um exercício de reconciliação. Reconciliação com os outros e com este mundo-aqui do qual partilhamos. Eis a “sombra” que Dioniso derrama sobre as megalópoles pós-modernas.
Com efeito, se ele está nos momentos em que o sentido se precipita, levando consigo os sonhos distantes, momentos “politeístas” e universais, momentos de tensão em que a alma do mundo se exalta pelo “porvir”, ele está em outros, em que, ao contrário, se aplica, bem de perto, a se enrolar no que está aí, valorizando o que é “dado”. Retorno à terra, imaginação do sentido. (...) Podemos acrescentar dizendo que a consciência coletiva busca se enraizar, se politeizar, fazendo ressurgir seus deuses com tantas “abreviações da parte fenomenal do mundo” (Nietzsche), é reinvestir nos mitos que, em resumo, narram um mundo que partilhamos com os outros.
Tudo isso que é um forte sinal de uma mudança de imaginário. Tudo isso que é a marca da pós-modernidade. A elaboração de uma coerência social vivida, paradoxalmente, de perto, mas com ajuda dos sonhos imemoriais,que embalam a infância de cada um de nós e que atualizam a juventude do mundo.
É isso mesmo que nos surpreende nos numerosos fenômenos sociais contemporâneos, em particular nas práticas juvenis. É o que está em curso na criação artística e na vida de todos os dias.* É o que se necessita pensar: a profunda significação do sem-sentido da vida. Uma significância que não se projeta. Uma força social que não se reconhece mais no mito progressista, ou nas teorias de emancipação que o expressam, mas que extrai sua << substancia medula >> de suas raízes, de uma natureza que lhe serve, ao mesmo tempo, de matriz e de escrínio.
Essa significância, que não se projeta e que vive o dia-a-dia dos mitos arcaicos, faz recordar algumas intuições, como a de Gabriel Tarde sobre a “repetição universal”, e certamente a iluminação nietzschiana sobre o “eterno retorno”, que se encarnam, concretamente, nas figuras da publicidade ou no ritmo lancinante da música tecno. As conversações cotidianas ou a importância da repetitividade nos noticiários jornalísticos são, também, ilustrações esclarecedoras.
(...)
A vida cotidiana não é tributaria da simples razão, ou melhor, esta não é a chave universal. Devemos associar a ela o papel da paixão, a importância dos sentimentos partilhados. Convém integrar, implicar, o jogo dos afetos, a imprevisibilidade dos humores, também o aspecto factual dos ambientes, sem esquecer a reverberação que não deixa de ter, no fim das contas, a memória coletiva que, feliz ou infelizmente, por sedimentações sucessivas, constituiu o sentimento de pertença próprio ao fator comunitário.
Estas são as “criptas”, próprias ao inconsciente coletivo, que se necessita levar em conta para compreender as efervescências , as irrupções, as abstenções, os desamores ou as súbitas histerias que caracterizam os fenômenos políticos, esportivos, festivos ou cotidianos, freqüentes na atualidade. Essas criptas são povoadas de fantasmas, de figuras maravilhosas ou assustadoras. Todas coisas “irreais”, mas não menos pregnantes, em todo caso presentes nos noticiários criminais, no paroxismo fanático, na comunhão esportiva ou no êxtase musical. A fantasia e o fantástico são, portanto, partes recolhidas da imaginação social, cujo efeito não podem mais ser negados.
(...) o desafio “está lançado pelo “barulhento” Dioniso ...”
In Michel Maffesoli – A SOMBRA DE DIONISO
06/04/2008
04/04/2008

02/03/2008
27/02/2008
24/02/2008
SARAH BERNHARDT15/02/2008

Nós nordestinados na guitarra eletrica.
13/02/2008

16/01/2008
Acerca da programação universal de Janeiro de Grandes Espetáculos
Ou Incorporando o tempo deles.
Entre “Corra” e “Um Sábado em Trinta” estamos nós, os ”Atores da Noite”.
Às dezenove horas. Não, as dezesseis ou vinte uma hora: 19H. Estamos longe do horário nobre inventado pela televisão, ou de um espaço histórico-teatral. Sejamos ‘experimental’, sejamos ‘experimental...’.
Nos precede na fila: stop e link diante do caos, teorizando na voz de ‘narrator’ a des/ordem nossa de cada dia, cobrando na sua representação o qualitativo de novo. A façanha tem um elevado grau de ilusionismo.
Quem nos sucede, tem vitalidade clássica, açucareira e o modismo musical de um modo de falar desventrado pela vulgata midiática. É um tempo outro, lento, velho e sabiamente engraçado, e que tendo penetrado na história nos presenteia o cotidiano (stop) com toques do real.
No meio estamos nós. Atores em meio ao claro-escuro noturno. Midia Nite. Consideramos nossa ilusão no universo do onírico, palpável, dobrável apenas com dedos de sutilezas, simbolismos e vergonhas outras, mais intimidades disfarçáveis à medida que realizamos nosso todo... pela metade. É certo, entre um e outro nos compete o lugar, o tempo e a imprecisão. É preciso!
Nos descrevem assim: de nonsense recheados, comediantes líricos em exercício de metalinguagem - e seja ela lá o que for - , colocando as relações humanas e o desafio de vivê-las como stop. Ponto. Mas, não pronto, posto que ainda não distilamos convenientemente nossa real idade e o conceito do sonho que perseguimos. Nós não sabemos, ainda.
13/01/2008
31/12/2007

'INSIGHTFASHION'
Carlos Bartolomeu
Quase sempre as coisas do espírito são na verdade aquelas deixadas à margem; objetos, ações, sujeitos e sentimentos invisíveis ao nosso olhar imaturo. Discernimos menor tal representação, apenas creditando um significado olímpico quando o jogo encarna o impossível, o incompreensível, o ilimitado, o apartado de nossas vivências.
· Pequenos hábitos e sonhos diários que não nos damos conta porque repetitivos, as descobertas pessoais, muitas delas necessariamente incomunicáveis para o outro, a simplicidade, e um sem número de ocorrências sutis, suavemente invisíveis, não prevalecem diante da arremetida defensiva que nos obrigamos frente à dinâmica da vida. Tal movimento nos indica o que é caminho e porto, ponto e travessão.
· Ser feliz é desiludir-se e ceder a pressão da leveza, é a sábia opção de se deixar conduzir pela voz interior que nos convida há sermos um dia de cada vez, a termos o vazio como prêmio, e desejo algum como aspiração.
· Talvez essas considerações sejam abstratas ou demasiadas em sua realidade, de fato é a finalização rebuscada daquelas coisas por nós abandonadas: a coisa menor e irreconhecivelmente livre, as coisas do espírito.
· Tal visão nos aponta para feliz aceitação da matéria e razão, para nossa sede de emergências, nossas necessidades de amores e compreensão como exercícios do infinito, aos quais devemos retornar com qualidade e busca preciosa.
· O espírito conhece a carne, a mortalidade. Reconhece a experiência como conduto de profunda sabedoria. O absoluto que nos habita, desmascara o peso, e surpreendentemente se apresenta como brisa, odor e passagem.
· A carne e a mortalidade são instâncias do absoluto, pluralidade do uno, complexidade do simples, jogos do Amor.
· As coisas pequeninas, esquecíveis, deixadas na estrada ao fim da tarde são permanentes, pois que não desejam para si... São elas, que nos acolhe quando tudo mais se vai, e completando sua viagem nos ajudam a nos dissolver no infinito que é nosso lugar.
23/12/2007
21/12/2007
07/12/2007
A COMPANHIA DO CHISTE se faz presente a mais um importante evento cultural, trata-se desta vez do Concurso de roteiros patrocinados conjuntamente pela pela FUNDARPE e Prefeitura da Cidade do Recife.
Carlos Bartolomeu e mais o artista plástico Paulo Bruscky, o ator Everaldo Pontes, o documentarista Jorge Alfredo escolheram os novos ganhadores desse prêmio.
05/12/2007

Aos INTÉRPRETES Do Recife e Comediantes de PE -
Carlos Bartolomeu
PARA AQUELES QUE SE ENCONTRAM NO CAMINHO DAS ARTES CÊNICAS RESERVO-ME A ESPERANÇA QUE COMPREENDAM O LIMITE DA ÉTICA COMO ELEMENTO IMPRESCINDÍVEL A REALIZAÇÃO TEATRAL.
POR TRÁS DE NOSSOS SUPERÁVEIS DEFEITOS, E DA INADIÁVEL NECESSIDADE DE PRECISARMOS DIZER ALGO PARA O MUNDO, PERCEBAM O ROTEIRO DA VERDADE, A VIDA É UM FATO CONSTRUTOR DE POSSIBILIDADES, DO SONHO, E CRIAÇÃO, É AUXÍLIO AO ENTENDIMENTO DE QUE VIEMOS PARA APRENDER. A REALIDADE QUE ELA NOS OFERTA É UM A PROPOSTA DE QUE NOSSO ENTORNO É DESMONTÁVEL, NOSSA BAGAGEM SUPERFLUA. O TEATRO CARREGA EM SUA ARCANA COMPETENCIA: PASSAGEM.
AO LONGO DOS ANOS MEU OFÍCIO TEM SE REVELADO UMA METÁFORA, ÍNDICE DE POTENCIAL CAMINHO À ENTREGA CRIATIVA, DA CONJUGAÇÃO DE INUMEROS PLANOS, BOA VONTADE, DA IRRECUSÁVEL INTUIÇÃO DE CONHECER ENQUANTO ARTISTA COMO É IMPERMANENTE NOSSO OFÍCIO. ATUAR, INTERPRETAR, ENCENAR É PROCURA, UM ACHADO JAMAIS FINALIZADO. NOSSA ULTERIDADE É A SUPERAÇÃO DO PRÓPRIO ESTADO, DESPOJAMENTO DA MÁSCARA, VER AS COSTAS DO PÚBLICO. PERDA DE IDENTIDADE: ENCONTRO.
É ASSIM QUE O TEATRO TRANSPORTA-SE, CONDUZ VIDA. COMO DE RESTO ESTARMOS NELE É TAMBÉM, ESTABELECERMOS UM DIÁLOGO COM AS FORMAS DE MORTE, E NESTA CONVERSAÇÃO SUPERARMOS O FORMATO DA TOTALIDADE DO ADEUS. O TEATRO NOS ENSINA COM SUA ALTERNANCIA ENTRE FINS E RETORNOS, PONDERANDO MEDOS E DESEJOS, ALICIANDO CORAGEM... COMO QUANDO DEIXAMOS CAIR A MÁSCARA, E ENFRENTAMOS A REVELAÇÃO E EXIGÊNCIA DO VAZIO. À MANEIRA DE UMA PERSONAGEM QUE SE DESPEDE, PARTAMOS PARA A COXIA. NA MAIOR PARTE DAS VEZES É LÁ NOSSO LUGAR. FIQUEMOS EXULTANTES; MUITO DAS AÇÕES HUMANAS REVELA SUA EXATA DIMENSÃO QUANDO OCUPADA NO DESPOJAMENTO.
A DIMENSÃO PERTUBADORA DE SE SER O CENTRO, O FOCO DE ATENÇÃO NÃO SE SUSTENTA NO MEDO, NEM NO ORGULHO EM DEMASIA; MUITO CEDO, SE VOCÊS FOREM ARTISTAS VERDADEIROS, DESCOBRIRÃO O INSUPORTÁVEL PESO DA RESPONSABILIDADE. ISSO, INEVITÁVELMENTE ACONTECERÁ SE VOCÊS TIVEREM CARÁTER E AMAREM A VERDADE.
TODO ATOR É UM FINGIDOR, MELHOR DIZENDO, UM FUGIDIO, OU PELO MENOS DEVERIA TER A CONSCIÊNCIA DE SE RECONHECER ASSIM. NA AUSÊNCIA DESSES DOIS REQUISITOS PRECIOSOS, SOBREVIVERÃO COMO FANTOCHES, BONECOS DE LUVA SEM UM ESPÍRITO REAL QUE A ELES SE FIXE. POR ISSO PEÇO A TODOS VOCÊS; CUIDEM DA ALMA, ALIMENTEM O LADO INTERIOR COM A COMPAIXÃO E AMOROSIDADE QUE VOCÊS DEDICARIAM AOS PEQUENOS SERES, AS CRIATURAS SEM DEFESA, SEM VOZ.
-SEJAM CRIANÇAS SEMPRE, SEJAM CLOWNS.- (1)
EU OS AMO ASSIM, EU ASSIM OS VEJO. EMOCIONADO ME FLAGRO A ESCUTAR O CORAÇÃO DE CADA UM DE VOCÊS COM UMA INDÍZIVEL ALEGRIA. NÃO SE ESPANTEM COM ESTA DECLARAÇÃO PLENA DE TERNURA, DERRAMADA... GUARDO ESPAÇOS INIMAGINÁVEIS PARA O EXERCÍCIO DO AFETO E DO COMPANHEIRISMO. QUERO QUE VOCÊS SAIBAM: HÁ UM DEUS QUE MORA COMIGO, ELE ME CONHECE E DISSO ELE SABE, ZOMBA DAS RAZÕES DE SER DESSAS MINHAS EXPLOSÕES AMOROSAS. AS GARGALHADAS, QUASE SUFOCANDO DE TANTO RIR, APONTA-ME O LADO ESQUERDO E MALICIOSO CONFESSA: ESTÁS AGINDO COMO EU! DEPOIS, APENAS SORRIDENTE, LEVEMENTE SUADO, ME OLHANDO DENTRO DOS OLHOS, FALA BAIXINHO UMAS FRASES LINDAS, PERFEITAS, PONTUADAS POR ANJOS E EU COMPRENDO. FICANDO A OUVIR SÓ COM O ENTENDIMENTO DOS ENTERNECIDOS. DAQUELES QUE SÃO NA PRIMEIRA PESSOA... DO PESSOA. PASSADO UM TEMPO RECOBRO DA REPRESENTAÇÃO. DA PRIMEIRA PARTE, JÁ REPRESENTADA, EU ME RECORDO. DO MAIS NADA LEMBRO, APENAS SINTO E SEI QUE SEU RECADO É PESSOAL, INTRADUZÍVEL. NÃO EXISTEM PALAVRAS PARA NOS POR EM CONTACTO COM TAL REALIDADE. APENAS O OUVIDO INTERIOR DE CADA UM DE NÓS É QUE POSSUE A TRADUÇÃO. POR ISSO, ESSE JEITO MEU DE ENSINAR, DE ME CONTAR, DE ME EXPLICAR, DE CONDUZIR. DE TAMBÉM ERRAR...
MEU OFÍCIO É A FELIZ ACOLHIDA DE UM LIMITADO REPERTÓRIO DE JOGOS E BRINCADEIRAS. A IMPRESCINDIVEL VONTADE DE TROCAR OS MEUS BRINQUEDOS PELOS DE VOCÊS. DIREI MAIS, NÃO É CARÊNCIA NO SEU SENTIDO BANAL QUE ME FAZ PROCEDER ASSIM, É ANTES, O DESEJO POR AQUELA CÁRITAS INCENDIADA QUE NOS FALOU MÁRIO DE ANDRADE, POR MIM ANOS ATRÁS CITADA, GRITADA. INCURSÃO COMO VOZ-OFF NA PEÇA “ATO NEGATIVO”. (2)
CREIAM-ME, UMA PARTE DO QUE ME FOI CONFIADO, FICA COMIGO. AO MEU LADO PASSEIA, SUSSURRANDO PIADAS INÁDIAVEIS, EMOÇÕES SEVERAS. ENCARNAÇÃO DE FANTASMAS BUFOS; CANTERVILLE E O PAI DE HAMLET. ESBRAVEJANDO: REMEMBER! REMEMBER! PARA LOGO EM SEGUIDA CONCLUIR PELA DILUIÇÃO PELO ESQUECIMENTO... MOMENTO TERRÍVEL QUJE POR SI SÓ SE COMPLETA E ME APASCENTA.
O QUE FALTA, PRESSINTO, IMAGINO. DESEJO A VOCÊS, A VIDA PARA BRINCAR. (3) (SE DECIDIREM FICAR ENTRE A COXIA E O PALCO, MAS SE FOREM PARA PLATÉIA... AÍ, PROCUREM OUTRO SCHOLAR). SE SINCERAMENTE QUEREM CONTINUAR A VIAGEM PELO ESPAÇO DA IMAGINAÇÃO E POESIA, SE AINDA QUISEREM ASSUMIR NOVAS MÁSCARAS E SEUS ADEREÇOS, ENTÃO PRESTEM ATENÇÃO A CERTOS TIPOS QUE CRUZARÃO SUAS VIDAS. (4) OUÇAM-ME E REGISTREM! TAIS FIGURAS RESISTEM AMPARADAS PELA NOSSA COMPLACÊNCIA E DESLEIXO COM AS COISAS DO BELO. REGISTREM E AJAM!
A LISTA QUE SE SEGUE, NÃO DEVE SER LIDA, COMO SE SUA ORDEM PRETENDESSE REALÇAR A IMPORTÂNCIA DE ALGUNS DE SEUS PERSONAGENS. MINHA PROPOSTA É LEVAR EM CONSIDERAÇÃO O ENUNCIADO SIMBOLICO EXPRESSO POR ELES. O DESENHO TRAÇADO POR SEUS ANUNCIOS ERRADIOS É TOSCO DEMAIS. PROPONHO DISTANCIA, MAS, ATUANDO COMO TESTEMUNHAS. LEMBRANDO QUE O FUNDAMENTO DA BRINCADEIRA É A DE VISITARMOS EM NÓS MESMOS O JULGAMENTO, A MÁ CONSCIÊNCIA.
ENCAREMOS O DESFILE. PUXANDO O GRUPO DE ALEGORIAS, ORA VESTINDO, ORA ENVERGONHADAMENTE RETIRANDO A MÁSCARA, DESPONTA, A FIGURA IMPERIAL DO:
'PROMETEU DE CENA'
Eles são muitos, egressos das mais remotas paragens, dos mais disparatados enxertos socioeducacionais. Surgem como cogumelos após as chuvas de verão. Navegam num mar de ilusão, orgulhosos de suas toscas obras com um fervor fundamentalista. Isentos de autocrítica, mas afeitos a por em descoberto o erro alheio, são capazes de construir teorias tolas para reduzir, destruir ou mesmo impedir a criativa visão do oponente. Entenda-se por oponente, desde o pobre artista bafejado por ocasional aura de reconhecimento e aplauso, até o Everest da teatralidade, o bambambam das artes. As razões pelas quais se dedicam a tão extremado ódio, quase sempre são inconfessáveis. Supõe-se que a atitude extremada, destile a lógica da inveja. Lógica esta, ordenada por um espírito voltado a duplicidade, no que tange a apreciação em si, daquilo que depreciam nos outros. Neles se distingue a limitadíssima cota do divertido, a sanidade da alegria. Detestam o riso, nunca se rindo deles próprios. Mas, quando se tratam dos outros... Para melhor desfilarem seu mau humor em relação ao espetáculo, texto, diretor ou ator desafeto. Entenda-se desafeto todo e qualquer indivíduo que não comungue de seu ideário. Alguém que participa de seu esquema de autopromoção, ou apenas seja brilhante, ou sinceramente eficaz no trato da causa dionisíaca. são capazes de mover céus e terras. Dedicam uma eternidade de suas vidas a construção ou reinvenção do nada. O silêncio também faz parte de suas estratégias no desmerecimento do valor alheio. Portanto ao emudecerem, bem atestam a forma vazia de conteúdo de suas ilações, valorações ou descobertas óbvias. Tolos de certo sucesso, aportam em instituições, frente a desavisados companheiros, lugares e espaços afins. Liberais na saliva, mas, não resistem ao dinheiro público. Secundando este oneroso bufão divisamos a figura não menos hilariante
O ACOMPANHANTE DA CELEBRIDADE LOCAL. Concorda obviamente com o que pensa a “celebridade”, detestando com estrepitosa celeridade, aquilo que esta apenas ironiza. Leitor ávido de orelhas de livros sobre arte cênica e artes em geral, apresenta conceitos, emite pareceres finamente recheado por citações. Vez por outra, desentende-se com a luz de seus horizontes, pois quase sempre o que sabe a respeito do mundo teatral, da estética, de resto da própria vida é de segunda mão, ou fortemente inspirado pelo ressentimento. Gostaria tal personagem, de ser ela mesma, uma celebridade. No entanto nutre certo profetismo contrário às suas arremetidas aos Alpes. Destina-se a passar o resto de seus dias a ser vítima da má sorte, da mesquinhez da cidade que não lhe reconhece o gênio. Mas, para sermos justos está perfeitamente adaptada a relação servo/patrão, a qual faz jus e na qual sobrevive em estado de permanente emulação ao outro. É sempre bom não esquecermos que esse tipo pegajoso, pode mudar de patrão e acompanhar outra opinião. Cuide para que essa não seja a sua. Na sequência aparece plena de gentileza,
Os SUIS GENERIS
De todas, talvez seja a mais intratável socialmente... Ela tem equivalência no universo de ser público como aquilo que cotidianamente reconhecemos por mala. Suis generis é uma sem alça; pesada e sem as rodinhas que viabilizem seu curso. Esbarra em seus pares e contrários, com uma desenvoltura própria de um crítico teatral em início de carreira, com o qual acreditam ter uma afinidade metafísica, pois na qualidade auto descoberta de entes sobrenaturais do quadro cultural de nossos dias, sentem-se guiados por mão divina no espaço que ocupam. Não obstante, por mais que procuremos não encontramos a origem de tanto conhecimento e sensibilidade angélica. Dominando todo e qualquer assunto cênico a personagem suis generis vai da tragédia babilônica ao melodrama soteropolitano, esgrimindo graça e verve ao dissertar sobre o drama napoleônico, atinge o estupor da sapiência asinina ao concluir em definitivo que o teatro local esta entregue às mãos de ingênuos, ineficazes, ociosos, embusteiros de marca maior, aos quais, deveríamos todos eles, pessoas de classe, agirem com dureza, obrigando a essa máfia de chupins a retomarem suas vidas no limbo, como figurantes de As Rãs, obviamente numa versão de final de ano letivo, de algum esforçado curso de teatro. Nunca se sabe de onde surgem, sua origem é quase sempre secreta, embora com a leveza que lhes é peculiar, são admitidos muitas e muitas vezes em ambientes de fino trato e pouca inteligência. Grande maioria dos de sua espécie, ocupam horas, com seu resfolegar enfadonho dissertando sobre hipotéticos antepassados, importantes e/ou teatrais, a insinuarem intimidades com a superestrutura. Apresentam nível educacional de duvidosa raiz, embora possamos encontrar essa graça de sujeito em corporações intelectuais; às vezes, as presidindo ou sentando as suas diretorias. Constantemente os avistamos vagando em vernissages, consertos e concertos e a toda e qualquer estréia. Em cem por cento dos casos, definem-se contrariamente ao espetáculo, enfim a criação do pobre artista que lhes caia na rede. No quesito autocrítica, é um tolo imorredouro, equivalente ao seu irmão em bestialidade, o acompanhante de celebridades. Com ele, todo cuidado é pouco. Logo em seguida, a desenvolta personagem, conhecida como:
A figura do NOTA de DEZ .
Dela podemos afirmar, ser conveniente a mais rigorosa distância, pois toda sua pessoa é feita de notas dissonantes de finíssima educação e sentimentalidade demasiada. Posicionando-se a maior parte do tempo a favor. Nunca é contrária a nada, e mesmo quando esse nada é mesmo um nada, uma inutilidade digna de sobrepor-se a qualquer recorde, o sujeito encontra sempre uma fresta, por onde, segundo ele se pode entrever talento, inteligência em estado latente, sensibilidade a ser lapidada. Quase sempre, o tal achado é um caso crônico de idiotismo 'vulgaris', de acefalia pura e simples ou pomposidade oca. A figura nota de dez é pródiga em descobertas e paternidades. Em ambos os casos a tal descoberta entra na maior parte do tempo, por assim dizer, com a porção material. Enquanto isso, o Pigmalião trata de empregar todo seu tirocínio na ocupação de tão rude, mas luxuriante espécime. NOSSA personagem é vagosimpatica e se permite a breves afagos no focinho. O par perfeito da figura nota de dez é a figura nota de zero. Ambos se merecem. POR ÚLTIMO, PORÉM, NÃO ENCERRANDO A POSSIBILIDADE DE EXISTÊNCIA DE OUTRA MÁSCARA POSTERIOR, TERRÍVEL E RISÍVEL, TEMOS
A figura do NEOTEATRAL OU CLÓVIS DE CHUVISCO
Com a queda do muro de Berlim e o advento da globalização, esta é o receptáculo das mais imediatas realizações do ideário up to date. Acreditando-se pós tudo e mais qualquer coisa, Desfila a si mesmo, e firma-se no universo do desconhecimento por sua atitude pendular: ora ridiculamente a droite, ora esquisitamente a esquerda. Dono de uma visão eminentemente pragmática firma seu estiloso savoir-faire sobre as mentalidades panis et circenses da cena pernambucana. Sua ideologia é o “EU” somente, com a qual símios de diversas tonalidades comungam, por ser quem são ou por acreditarem com a força de suas sazonais crenças que não custa nada ser bobo só uma vez e... Mais outra e mais... O neoteatral ou Clóvis de chuvisco muitas vezes, ou mesmo na maioria delas dá certo. Insensatamente os poderosos do dia, que sempre andam a cata de artistas para enfeitarem sua festa, ofertam o ombro amigo, a bolsa insegura... E o nosso Clóvis é confundido com uma figura de peso intelectual, de vigor moral: um estadista do oportunismo. Enfim, ora direis... Lá estará esse nosso 'visionário'.
NESTA PEQUENA LISTA, VOCÊS DESCOBRIRÃO OS CONHECIDOS, AMIGOS, E OS UTÉIS ADVERSÁRIOS DE NOSSOS GOSTOS E SIMPATIAS. ELES SÃO NOSSOS ESPELHOS... REFLETEM QUEM SOMOS, PERSONAS PLENAS, OU INFLADAS DE RÍDICULO, DIGNAS DE COMPAIXÃO, CARENTES DE SUAVIDADE E TERNURA COMO AS DO ELENCO ACIMA. É PRIMORDIAL RECONHECERMOS EM NÓS, O ENTRELAÇAMENTO DO RISÍVEL E DO TRÁGICO E FICARMOS ATENTOS PARA OS PAPEIS QUE IREMOS DESEMPENHANDO AO LONGO DE NOSSA VIDA. FUGAZES, TODOS. PORÉM, RICOS EM SUTILEZAS DO POSSÍVEL E DO IMPROVÁVEL.
NÃO TEMAM OS PAPÉIS SOLO. INICIAMOS NOSSA TURNÊ NESSE MUNDO DESSA MANEIRA. DESSA MANEIRA A ENCERRAREMOS. NÃO RECUEM NA HORA DO MEDO E DA GRANDE SOLIDÃO, MERGULHEM BEM FUNDO, ATÉ SENTIREM A INUSITADA DESCOBERTA, DE QUE MESMO ELES SÃO IMPERMANENTES, SÃO ILUSÃO.
O BEIJO FINAL SERÁ DADO POR NÓS E EM NOSSA PRÓPRIA BOCA. O APLAUSO SE FOR O CASO DE O MERECERMOS, DEVERÁ SER (OU PARECER?) NÃO COMO UM ESTRONDO E SIM, COMO UM SUSSURRO. (5)
NOTAS
1) Tendo em mente a figura de clowns, realizei em meados dos anos oitenta, um dos meus mais queridos trabalhos de encenação: O Arquiteto e o Imperador da Assíria, com Magdale Alves e Keóps Vasconcelos. As revelações de Federico Fellini em Fellini por Fellini iluminou-me o conceito desse espetáculo, fazendo-me reunir em cena a volubilidade dos palhaços carnavalescos de minha infância, gags da cena muda em p&b, e o definitivo recorte dos palhaços brancos dimensionados pelo mestre italiano. O lirismo presente na atuação desses dois atores personificava minha idéia de ser no palco: POESIA, POESIA, INCOMUNICABILIDADE e GESTO. Retorno com tal idéia em AVIDADIVA, e na atualidade com ATORES DA NOITE.
2) A encenação nasceu do átimo futurista de Bruno Corra e E. Settimelli. Essa experiência teatral foi levada a cena pelos alunos do Teatro de Estudantes do Centro de Artes, o TECA em 1985. O impacto do trabalho operava-se em cima da "surpresa" criada pela encenação: o retorno do texto ao seu inicio, refazendo o percurso das marcas anteriormente já desenhadas pelos atores dentro do espetáculo.
3) A PLAY IS A PLAY
4) O Padre Lopes Gama e seu indiscutível senso de humor são em parte co-autores dessa tipologia lombrosiano-circense
5) Penso ser de Wallace Stevens a citação que encerra o texto. É tudo!
17/11/2007
27/10/2007
13/10/2007
23/09/2007
20/09/2007
19/09/2007
07/09/2007
06/09/2007
04/09/2007
03/09/2007

01/09/2007
30/08/2007
24/08/2007

Carlos Bartolomeu
· Rememoro e de mim salta um detalhe da lembrança. Um ator se livra de objetos, deixa-os sobre um palco e, antes do ato, envia-me uma fala; um movimento congelado pelas lentes de uma objetiva derrete-se. Vejo a cena, sou movido daqui para o acontecido. E reconheço mais adiante, em outro suporte, o continuum desta revelação: Na fotografia um clown estreita algo entre os braços. **
· Olho a foto, documentando um átimo de cena da montagem de Electra no Circo, de Hermilo Borba Filho, encenada por mim em 1975. A imagem me leva a outra lembrança. No primeiro ato, outro ator vestido como Chaplin, depõe à direita do palco, seus reconhecíveis adereços: um chapéu coco e uma bengala. Volto à foto, observo o clown fitando a platéia. O corpo hierático está dentro do círculo de luz e posiciona-se fixamente no espaço terreno do proscênio, banhando-se na luminosidade dos refletores. A sua face recriada pela maquiagem está claramente iluminada. O pano de roda do circo está desfeito, pende em desalinho e mais ao fundo da cena destaca-se um pierrô plúmbeo, posado, estatuesco. Outros pierrôs ao fundo, fora do enquadramento fotográfico. O circo está morto.
· O palhaço no proscênio, a meio caminho entre atuar e ser espectador posiciona-se não apenas diante do olhar da platéia, à sua frente, como portador das insígnias chaplinianas, ele se expõe a memória, aspira ser salvo para o futuro. Oferece a sua provisoriedade, trans/humanizando-a em aparência de imortalidade conferida pela fotografia. Não é mais carne, osso e poesia, é luz impressa. Por isso, para isso, talvez, o gesto teatralmente congelado, premeditando a possibilidade de monumento à permanência.
· O ator transfigurado pelas roupagens do clown está a salvo por trás daqueles adereços. Seguros, em suas mãos, estes se posicionam determinantes, como uma batuta de maestro ou o pincel do pintor. Reduções cenográficas da tentativa, por vezes tangível, de conferir ao ato, a suprema importância. Tais símbolos, apropriadamente óbvios de potência, conferem ao clown, uma majestade lúdica, preenchendo naquela personagem, um símbolo de organizador da cena.
· O ser que se mostra ao público estará representando exatamente o quê, ou quem? Por trás dele, avança numa outra dimensão, o encenador e a sua imagem velada, não apenas recria os símbolos, ela os questiona, reinterpreta, reconhecendo neles, a provisoriedade de tudo, que é a sua também. O interprete sonha, atua no sonho de outro.
· Decerto, aqueles espectadores e atores que assistiram ou vivenciaram a cena que descrevo, perceberão nela, outras intenções, recordarão o gesto diferentemente. Imagino que outros concordarão comigo, e retirando da imagem fotografada ou de suas memórias, uma lembrança comum, receberão a emoção primitiva, e a imagem enlutada reviverá luminosa ... Gesto, ato. Através deles ou por eles, simplesmente, anseio que muitos tenham... Sentido. E se sentiram, tenham podido refletir. É o necessário.
· In FIXANDO O FUGIDIO – CARLOS BARTOLOMEU
22/08/2007

11/08/2007


03/08/2007
O livro reune dois textos teatrais do encenador Carlos Bartolomeu, trata-se de ATORES DA NOITE e ENSAIO ABERTO.
29/07/2007
20/07/2007
17/07/2007
16/07/2007
30/06/2007
24/06/2007
09/06/2007

08/06/2007
07/06/2007
01/06/2007
31/05/2007
Os augustos-brancos dessa narrativa são os atores ROGER BRAVO e RODRIGO CUNHA.
A grande novidade é que a COMPANHIA DO CHISTE enriquece-se com a contribuição de seus atores dentro da própria direção do espetáculo, onde Roger, Rodrigo e Pascoal Filizola (que desta feita não atuará) exercitam em três dos diversos átimos da peça, suas contribuiçÕes.
Na equipe de som e luz ressoa e brilha Cleison Ramos e Diogo Barbosa.
Alisson Castro adereços especiais para a montagem.







































































































































